TRABALHAR COM MODA – Como é o Departamento de Produto de uma marca Internacional

Olá! Muitas pessoas me perguntam como é trabalhar no departamento de estilo, produto e compras de uma marca Internacional. Com minha Vivência na Miss Sixty da Itália, na Zara e agora no El Corte Inglés, essas 2 últimas, marcas Espanholas, posso dizer que é uma experiência extremamente enriquecedora! Alguns processos são diferentes das marcas nacionais, outros Iguais.

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POR DENTRO DA CRIAÇÃO
Aqui no Brasil, além de pesquisas em sites de tendência como o WGSN, revistas internacionais e outros canais, os estilistas viajam para Estados Unidos e Europa ( normalmente focam nesses dois países ) , para buscar tendências, comprar amostras que servirão de base para modelagem, cartelas de cores, estampas.. Há muita “copia” ( alguns chamam de “inspiração” ) de peças lançadas pelas labels mais importantes, e isso acontece com as redes de fast fashion internacionais também, porque estão focadas mais em venda e não em conceito.
Se você trabalhar dentro de uma marca internacional que foca em criação e estilo próprio, vai notar que os estilistas buscam inspirações em viagens exóticas ( índia, Marrocos, Japão ).. ficam horas em brechós de Paris e se inspiram em filmes antigos ou atuais .. Tudo isso é trazido para a equipe de criação que transformará essas referências em tema e numa coleção completa e super personalizada.. Já numa marca de Fast Fashion, os estilistas buscam “inspiração” dentro das lojas mesmo, nas chamadas concorrentes. Eles compram amostras, fotografam peças, e as inserem em suas novas coleções, dentro do que pesquisaram ser tendência.. aqui o foco não é criação, e sim “venda”, o que é comercial e o que o cliente vai “desejar”..
Para as marcas Internacionais que montam estrutura no Brasil, a criação não é livre, ela só entra no momento que se observa uma necessidade de produto que não foi criado pelos estilistas que trabalham no escritório sede da marca, e que venham a encontro de uma necessidade específica/cultural do País.. e mesmo assim, tudo com muito rigor , controle e aprovação do escritório Internacional. Muitos dos modelos já vêm prontos e são criados lá fora, as vezes são até produzidos aqui, mas não se mexe na criação, apenas reproduz-se o item o mais próximo possível do original.

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E O GERENTE DE PRODUTO?
A função do gerente de produto em marcas nacionais e Internacionais é muito similar.. ambos são responsáveis por desenvolver a coleção desenhada pela equipe de estilo, e direciona-la aos fornecedores adequados a cada tipo de produto.. mas lá fora, as marcas trabalham MUITO com o mercados variados, e o desenvolvimento acaba sendo globalizado mesmo, abrangendo Europa, Estados Unidos, China, Índia, etc.. Por aqui, o gerente de produto, na maioria das vezes, foca o desenvolvimento dos modelos em fornecedores locais, mas também trabalha com fábricas da América do Sul ( Peru importa bastante para cá produtos em malha, no algodão tangues e pima ), e algumas marcas já produzem boa parte de sua coleção na China, através de escritórios que prestam esses serviços , enquanto as marcas Internacionais com estrutura maior, tem seus próprios escritórios e funcionários no mercado asiático.Já os processos de fichas técnicas, escolha de tecido, cartela de cores, etc, são os mesmos.
O Gerente de produto que trabalha no Brasil para uma label Internacional também precisa direcionar o desenvolvimento para fábricas locais, rever processos técnicos sobre o produto como acabamentos viáveis de se fazer em cada tipo de roupa, dentro das estruturas de fábricas nacionais, além de modelagem das peças para o corpo da mulher brasileira, item de EXTREMA importância e que traz resultados positivos ou negativos, dependendo da forma que for abordado, no momento da venda do produto, nas lojas. Muitas marcas mandam suas coleções prontas para cá, para serem “clonadas” em fábricas locais, e cabe ao gerente de produto buscar bases de tecidos similares, desenvolver estampas, acompanhar para que os acabamentos da peça sejam o mesmos, tudo com muito foco na engenharia de produto.

 

NO DEPARTAMENTO DE COMPRAS…
Os compradores desenvolvem os mesmos processos, aqui e lá fora, como negociação de preço com os fornecedores, busca de novas fábricas, análise de vendas por produto e loja, fechamento de pedido, acompanhamento dos processos de logística ( entrega, armazenamento correto, etc ).. Há uma margem de lucro que deve ser obedecida e toda a preocupação com a rede de produção, desde as etiquetas corretas até o controle de datas de entrega. A diferença é a mesma apontada no parágrafo acima, eles estão em contato com um mercado mais abrangente e fornecedores de todas as partes do mundo e precisam conhecer as regras e leis de cada país.
O comprador de moda que trabalha para uma marca Internacional com sede no Brasil, também deve cumprir regras estabelecidas pelo escritório sede, utilizar as margens de lucro estipuladas por esse mesmo escritório e buscar fábricas que atendam as necessidades da empresa no mercado local, tanto no que se diz respeito a produto ( tecidos, modelagem, acabamento ) , tanto no que diz respeito às leis ( fábricas que atendam aos quesitos mínimos de segurança, que não utilizem mão de obra escrava, etc, etc )..

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O que é importante ressaltar como um resumo desse tema, é que, trabalhando em uma marca Internacional com sede brasileira, você SEMPRE terá que obedecer normas e diretrizes que vêm desses escritórios centrais .. Uma marca Internacional dificilmente autorizará ao escritório Brasileiro a criar, desenvolver e comprar algo que não seja viável a filosofia da empresa e conceito da marca/ coleção e sem prévia autorização.. Tudo é acompanhada de perto, e a equipe do Brasil não terá grandes autonomias!

 

Espero que esse post tenha esclarecido algumas das dúvidas de vocês! até o próximo!

beijos

Marcia

 

Marcia Paron
Marcia Paron
Marcia Paron é estilista e Fashion Buyer, trabalhou para importantes marcas internacionais como Miss Sixty e Zara e hoje é gerente de negócios da cadeia Espanhola de lojas El Corte Inglés. Apaixonada por estética, arte e moda desde sempre, decidiu colocar em prática a paixão por escrever e orientar pessoas sobre tendências de moda, estilo pessoal, consumo consciente e autoestima, através do blog Buyer & Brand, um espaço aberto à informação sem afetação, com foco em moda acessível, feita para mulheres reais.
http://buyerandbrand.com.br

6 thoughts on “TRABALHAR COM MODA – Como é o Departamento de Produto de uma marca Internacional

  1. Marcia,

    Tudo bom? Adorei seu blog! Gostaria de te pedir uma ajuda: Sou graduada em Relações Internacionais com Pós em Marketing e atualmente trabalho em uma Trading Company japonesa na área de Óleo e Gás. No entanto, pretendo fazer transição de carreira e ingressar no ramo da moda. Acontece q eu não tenho a menor ideia de como proceder, já que percebo que há vagas para área de compras e não vendas (q é onde tenho mais experiência). Você poderia me orientar sobre como buscar esse tipo de vaga, como me candidatar em empresas multinacionais do setor? Talvez seja necessário q eu faça alguma pós na área? Qual sua sugestão?
    Tenho 27 anos e sempre fui apaixonada por moda, desenho e estilo, mas sempre tive receio de ingressar na área (longa história!). Agora estou decidida, só falta escolher o caminho perfeito!

    Obrigada!
    Ana

    1. Olá querida Ana, tudo bem? Moda é realmente apaixonante, mas hoje no Brasil acredito que as áreas mais importantes de atuação sejam desenvolvimento de produto e compras. A diferença entre compras e área comercial ( vendas ), é que no primeiro dpto, você irá prospectar fornecedores e fará a negociação de preços, data de entrega, prazos de pgtos, quantidades de pedidos, etc e muitas vezes acompanhará o produto também ( aprovação da peça, matéria prima, etc ). Em algumas empresas, na área de compras, vc também faz remanejamento de mercadoria em estoque e OTB ( OTB significa verba de compras em aberto e é o principal objetivo de um planejamento mercadológico: Comprar bem para vender bem, utilizando a informação de vendas e giro de mercadorias para determinar o nível ideal de estoques. O OTB começa quando o plano mercadológico de orçamentos termina ). Na área comercial, a pessoa acompanha a venda mesmo, metrcado, cliente, o que vende, o que não vende, etc. Como vê, não é nenhum glamour o business de moda, a gestão é sempre focada em números, vendas, estoque, markup, etc ). Se você quiser entrar para esse mercado, sugiro que faça sim uma pós na área, mas invista em um curso mais voltado para negócio de moda e não para criação, porque pelo que tenho visto e vivido, essa última, é a área mais defasada na moda. Se quiser falar mais, envie email para o buyerandbrand@gmail.com, ta? um beijo grande e sucesso!

  2. Ola Marcia, tudo bom?
    Acompanhei recentemente o seu blog e achei bem interessante, principalmente o seu post sobre como é trabalhar com moda nacional e internacional. Sou formada em moda em uma das melhores faculdades de sao paulo, me formei em 2015 e já tenhos muitas experiências nessa área, desde vendedora, departamento de produção, administração e estilo, quiz passar por todas os departamentos para entender como funciona o “negócio” da moda. Tenho 23anos e atualmente trabalho na area de estilo em uma empresa feminina de grande porte em são paulo como estilista, tive que ralar muito para conseguir o pouco que tenho. Mas infelizmente a area de moda.. somos muito pouco reconhecidos pelo nosso trabalho e muita pouca oportunidade.. sem falar do salário baixo pela exploração que passamos. Eu realmente amo o que faço e não me vejo em outra área, e claro tenho os meus sonhos e objetivos que quero consquistar que atualmente é entrar em uma empresa de moda dos meus sonhos, mas infelizmente pedem muitos requisitos, ter diploma em outros países seria um diferencial enorme, ter feito várias viagens internacionais que na minha condição não pude fazer por dificuldades financeiras também seria uma diferencial. Então no final vejo muitos colegas e profissionais que por terem essas experiências e condições financeiras boas conseguem atingir os cargos mais altos e claro os contatos de “elite” e mesmo tendo um portifólio melhor já por não ter essas “vantagens” sou excluída da lista dos candidatos. E principalmente para uma brasileira conseguir um cargo de moda fora do país é mais dificil ainda. Como você que teve essas experiências e cargos de estilista em empresas como a Zara / el corte ingles, queria saber um pouco da sua opinião e dicas de como prosseguir esse ramo sem desanimar e continuar amando o que faz. Por que infelizmente a realidade atual destrói até os nossos sonhos. E realmente nao quero que isso aconteça comigo, quero viver fazendo o que gosto mas de um modo sábio.
    Agradeceria muito se pudesse ter um feedback!

    Obrigada

    Daniela Park

    1. Olá Daniela, tudo bem? Olha, realmente a área de estilo é bem difícil no Brasil. Já era, há vinte e tantos anos, quando comecei a trabalhar e quase não haviam estilistas por aqui, imagine hoje, que em cada 10 meninas, 9 querem fazer moda e 5 acabam estudando e buscando oportunidade. Além disso, muitas marcas estão sem saúde financeira ou fechando, enquanto as novas são muito pequenas,sem estrutura e dinheiro para investir . Se você acompanha os blogs de moda, instagram, etc, percebe, que se uma menina é “influencer”, já se autointitula “consultora de estilo” e muitas, assinam coleções, como se fossem criadoras. Veja como mudaram os conceitos.. Um talento em moda e um estilista formado, que faz um lindo trabalho, muitas vezes não tem espaço e sofre frustrações, mas, uma pessoa com “fama”, acaba sendo muito bem paga por assinar uma coleção, onde nada criou, apenas participou da escolha do produto e colocou seu nome. Novos tempos. Por outro lado, as marcas nacionais não investem muito no Estilista e acabam dando mais importância à área de compras e o gerenciamento de produto. Há ainda empresas, onde o próprio dono viaja, compra amostras e já acredita que está apto a realizar uma coleção. Lamentável realidade. O que posso lhe dizer é que, quando comecei, não tinha nenhuma condição de viajar e estudar fora, apenas garra e talento e FORAM ELES QUE ME LEVARAM A CONSTRUIR A CARREIRA QUE TENHO HOJE. Senti-me muitas vezes, como você, frustrada e desanimada, mas tinha um grande intuito – seguir fazendo o que amava. O que fiz de diferente? passei de estilista à gerente de produto, depois à compradora, depois à gerente de negócios.. com essa ampla experiência em todas as áreas, as oportunidades foram aumentando, o salário idem, as viagens e os aprendizados. Nunca desanime por achar que outras pessoas chegam mais rápido porque têm mais dinheiro ou influência, já que o que te faz continuar no sucesso é seu talento e o que vai te ajudar a chegar lá, é ele e sua paixão pelo que gosta. NUNCA DESISTA! Eu comecei muito pequena e só tinha um sonho e meu talento como ferramentas. E por último, me envie por e-mail seu portfolio e seu CV, vou tentar ajuda-la no mercado ( mododeusarmodastyle@gmail.com ). SUCESSO! acredite em vc! olhe para o caminho que vc vai trilhar e no final dele, o que quer alcançar e nunca se distraia, olhando para os outros. Você é grande, quando se move pelos seus sonhos..eles lhe trarão as oportunidades, as viagens e o dinheiro. Beijos !

      1. Obrigada, foi um conselho e tanto Marcia. Não vou desistir dos meus sonhos,vou correr atras e continuar ate conseguir, essas palavras que voce me disse nunca vou me esquecer, vou acreditar nos talentos que tenho e crescer com eles. Bjss

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